Uma importante leitura para o dia 20 de novembro.

Prezada comunidade escolar,

No dia 20 de novembro, é comemorado o dia da Consciência Negra. O Programa de Biblioteca e Leitura que tem a missão de incentivar a leitura e a pesquisa inicia esse informativo com a ponderação sobre uma das reflexões que essa data nos impõe: afinal, o que é a consciência negra?

Entendemos a pesquisa como inerente às bibliotecas e às escolas, trata-se de um atividade importante e séria que deve ser realizada a partir de fontes confiáveis de informação para que, a partir dela, possamos construir novos conhecimentos. Assim, sempre recorremos a quem entende do assunto. Vejamos como a pesquisadora Nilma Lino define o que é a consciência negra: CLIQUE AQUI.

É a compreensão política do papel insurgente, libertador e emancipatório da população negra no Brasil e dos nossos ancestrais africanos trazidos à força para o Brasil. Consciência negra é adotar uma posição política na luta contra o racismo. É reconhecer a força, a herança, a resistência e a luta do povo negro, no Brasil. E é assumir politicamente e de maneira afirmativa a identidade negra.

Para a pesquisadora, o dia 20 de novembro foi instituído politicamente pelo movimento negro na construção da resistência e da denúncia ao racismo e em contraposição às interpretações despolitizadas a respeito do dia 13 de maio. É dia de relembrar Zumbi dos Palmares, liderança negra, que lutou pela libertação dos escravos no Período Colonial. Essa data é feriado em vários municípios brasileiros e está presente no calendário escolar, de acordo com o artigo 79B da LDB ( Lei de Diretrizes e Bases da Educação).

Nesse sentido, mais do que comemoração, o dia 20 de novembro é um marco para que toda a sociedade brasileira realmente reflita sobre a luta e a resistência negras ao longo dos séculos. É por meio dessa luta que o Brasil reconhece, por exemplo, o racismo como crime inafiançável e imprescritível, na Constituição Federal de 1988. É por meio dessa luta, também, que podemos nos posicionar e reivindicar uma sociedade onde as oportunidades sejam iguais para todos (as).

Por entendermos o poder transformador da leitura, não poderíamos deixar de buscar na literatura algo que dialogasse com as questões históricas, sociais e políticas que as reflexões sobre a consciência negra e a luta dos negros nos apresentam. Assim, deixaremos como indicação de leitura literária aos estudantes, profissionais de biblioteca, professores, pedagogos, dirigentes, gestores da educação e a toda comunidade escolar, o livro Quarto de despejo da escritora Carolina Maria de Jesus. E como mediadores, deixamos aqui um pequeno trecho da obra:

14 de setembro: “.Hoje é o dia da páscoa de Moysés. O Deus dos judeus. Que libertou os judeus até hoje. O preto é perseguido porque a sua pele é da cor da noite. E o judeu porque é inteligente. Moysés quando via os judeus descalços e rotos orava pedindo a Deus para dar-lhe conforto e riquesas. É por isso que os judeus todos são ricos. Já nós os pobre não tivemos um profeta para orar por nós”. (JESUS, 2013, p. 121).

O livro Quarto de despejo é o diário da catadora de papel Carolina Maria de Jesus que relata o cotidiano triste e cruel de uma mulher negra, mãe de três filhos e moradora de favela. O cenário é a favela do Canindé, em São Paulo. Você poderá perceber, com tristeza, que, mesmo tendo sido escrito na década de 1950, este livro jamais perdeu sua atualidade.

Despedimo-nos com a certeza de que a luta dos negros vem de longe e ultrapassa gerações e que nunca devemos desistir de construir uma sociedade verdadeiramente democrática e antirracista. Desejamos que todos (as) estejam bem e que façam boas leituras!

Abraços,

Equipe do Programa de Biblioteca e Leitura “Contagem das Letras”

Zumbi dos Palmares (1655-1695)

Zumbi dos Palmares nasceu em 1655, no estado de Alagoas. Ícone da resistência negra à escravidão, liderou o Quilombo dos Palmares, comunidade livre formada por escravos fugitivos das fazendas no Brasil Colonial. Localizado na região da Serra da Barriga, atualmente integra o município alagoano de União dos Palmares.

Embora tenha nascido livre, Zumbi foi capturado aos sete anos de idade e entregue a um padre católico, do qual recebeu o batismo e foi nomeado Francisco. Aprendeu a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre nas celebrações de missas. Porém, aos 15 anos, voltou a viver no quilombo, pelo qual lutou até a morte, em 1695.

Zumbi é considerado um dos grandes líderes de nossa história. Símbolo da luta contra a escravidão, lutou também pela liberdade de culto religioso e pela prática da cultura africana no País. O dia de sua morte, 20 de novembro, é lembrado e comemorado em todo o território nacional como o Dia da Consciência Negra.

Escritora brasileira, Carolina Maria de Jesus é autora do livro Quarto de Despejo, entre outras obras. Sua história de vida, relatada no livro-diário, é repleta de luta, superação e sofrimento – tratava-se de uma mulher, negra e favelada no Brasil do século XX. Foi catadora de papel, era apaixonada por livros, alimentava sonhos e desabafava sua triste realidade nas folhas de seus cadernos.

Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e Pós-Doutora em Sociologia pela Universidade de Coimbra e em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Nilma Lino Gomes foi, também, a primeira Reitora negra a comandar uma universidade pública federal e foi Ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, entre 2015 e 2016. Professora Emérita da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Nilma Lino tem atuação marcante na educação e nos debates sobre diversidade e igualdade racial.

ANGELA DAVIS 

“Angela Yvone Davis nasceu no dia 26 de janeiro de 1944, na cidade de Birmingham, Alabama, nos Estados Unidos. Sua cidade sofria, na época de seu nascimento, com a política de segregação racial implantada na maioria dos estados do sul dos Estados Unidos. Davis vivenciou desde cedo o racismo, vendo as ações brutais de uma das organizações mais populares do Alabama na época, a Ku Klux Klan. Além da política oficial de segregação, que não permitia que a população negra tivesse o reconhecimento de seus direitos civis e separava os espaços públicos para negros e brancos, Angela Davis vivenciou atos de barbárie promovidos por brancos contra os negros. Eram corriqueiros os linchamentos de negros e o incêndio e explosão criminosos de casas e igrejas nos bairros habitados por negros.

Ideias:

ABOLIÇÃO DOS PRESÍDIOS: Davis argumenta que os presídios cresceram muito e tornaram-se o destino de muitos negros, latinos e nativos nos Estados Unidos. Segundo a filósofa, o aumento dos presídios e da população carcerária não combate o crime, que continua aumentando. Ela defende que alternativas que visem à educação das populações marginalizadas devem ser tomadas para que o número de encarceramentos diminua até chegar ao ponto em que presídios não sejam mais necessários. RESISTÊNCIA: como militante negra, Angela Davis destaca o importante papel da resistência negra na luta contra o racismo e da integração de todos para que o antirracismo seja efetivo. INTERSECÇÃO ENTRE CLASSE, RAÇA E GÊNERO: estas três categorias, classe social, raça e gênero estão entrelaçadas, não sendo possível separá-las, segundo Davis. Para a autora, muitos militantes da esquerda só veem o fator da classe social, e muitas militantes feministas fecham os olhos para as questões raciais. É necessário enxergar que as três categorias estão juntas. LIGAÇÃO ENTRE RACISMO E VIOLÊNCIA SEXUAL: como herança da escravidão, em que os senhores tinham a legitimidade legal sobre o corpo e a vida de seus escravos e escravas, há uma tendência em se pensar que o homem branco tem poder sobre o corpo da mulher negra. Há também uma tendência à maior sexualização da mulher negra pela mídia, e isso reforça o estereótipo de que a mulher negra é um objeto sexual. Davis reconhece que a mulher branca também sofre com esse problema, causado pela dominação machista, mas entende que as mulheres negras estão em maior desvantagem por questões étnicas”. (PORFÍRIO, 2020)

LINHA DE TEMPO E ATIVISMO DA FILÓSOFA:

Década de 1960 “Na adolescência, Davis organiza um grupo de estudos sobre as questões raciais, que descoberto, é perseguido e proibido pela polícia. 1963: muda-se para Massachusetts. Quatro adolescentes negras, suas conhecidas, morrem em decorrência de um atentado a bomba contra uma igreja frequentada por negros em Birmingham. Ato motivado por racismo, que marca a sua trajetória e a faz perceber sobre a importância de se lutar pela questão racial em seu país. […] Davis integra-se ativamente na luta social e filia-se ao SNCC, a uma organização antirracista fundada pelo ativista negro Stokely Carmichae que tinha como princípios a resistência pacífica, ideal de luta também defendido pelo ativista, filósofo, teólogo e pastor negro Martin Luther King. Com o tempo, a SNCC deixa de existir. Carmichae e Davis filiam-se ao Partido Panteras Negras, adepto de uma luta antirracista mais incisiva e combativa, aderindo, inclusive, à luta armada contra o racismo. Leciona Filosofia na Universidade da Califórnia. Contudo, por suas ligações com o Partido Comunista é demitida da instituição.” (PORFÍRIO, 2020)

Década de 1970 “Luta contra a prisão injusta de negros nos Estados Unidos. E, vítima de um mal-entendido é colocada na lista dos dez criminosos mais procurados pelo FBI, acusada de conspiração, sequestro e homicídio. […] como representante dos Panteras Negras, acompanha o julgamento de três militantes do movimento que estavam presos, os chamados Irmãos Soledad. O irmão de um dos rapazes presos, Jonathan Jackson, de apenas 17 anos, invade o tribunal com mais dois comparsas, todos armados e sequestram, em uma van, o juiz, o promotor e os jurados. O resultado do episódio é trágico: culminando em perseguição policial aos sequestradores, tiroteio, assassinato do juiz por Jonathan Jackson, promotor atingido por tiro da polícia, tornando-se paraplégico e os sequestradores mortos pelos policiais. As investigações policiais, afirmam que a arma utilizada por Jonathan Jackson estava registrada no nome de Angela Davis. Davis torna-se foragida, sendo presa no mês de outubro em Nova Iorque, com grande cobertura da mídia. O julgamento dura dezoito meses com intensa campanha na sociedade pela sua libertação, movimento que chama a atenção de ativistas, intelectuais e artistas como John Lennon, Yoko Ono e a banda Rolling Stones. A inocência de Davis é comprovada no tribunal, culminando com sua saída e libertação do cárcere. Atividades pós-cárcere: militância pelo fim da Guerra do Vietnã assim como contra o racismo e pela igualdade de gênero, publicação de vários livros, docência em Filosofia e História em universidades prestigiadas nos Estados Unidos.” (PORFÍRIO, 202)

DE 1980 AO SÉCULO XXI

Candidata-se à vice-presidência dos Estados Unidos pelo Partido Comunista. Realiza palestras e conferências em vários países.

Participa da Marcha das Mulheres contra Donald Trump. Visita o Brasil e em Conferência realizada no Ibirapuera –SP reúne

15.000 pessoas.

OBRAS:

1 Mulheres, Raça e Classe. 2 Mulheres, Cultura e Política. 3 Estarão as Prisões Obsoletas?

4 A Liberdade é Uma Luta Constante.

REFERÊNCIAS:

ASSOCIAÇÃO PROFISSIONALIZANTE DO MENOR DE BELO HORIZONTE. Entrevista com Nilma Lino Gomes. Disponível em:<https://www.assprom. org.br/em-comemoracao-ao-dia-da-consciencia-negra-assoassociada-da-assprom-fala-sobre-igualdade-racial-e-de-didireitos/>. Acesso em: 11 nov. 2020.

CAROLINA Maria de Jesus. Disponível em:<https://www.portugues.com.br/literatura/carolina-maria-de-jesus.html>. Acesso em: 12 nov. 2020.

PORFÍRIO, Francisco. “Angela Davis”; Brasil Escola. Disponível em:<https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/angela-davis.htm>. Acesso em: 13 nov. 2020.

ZUMBI dos Palmares. Disponível em:<http://www.palmares.gov.br/?page_id=8192>. Acesso em: 12 nov. 2020.

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