1ª Marcha Virtual de Enfrentamento ao Racismo envolve a comunidade escolar da Funec Cruzeiro do Sul

A unidade Cruzeiro do Sul da Fundação de Ensino de Contagem (Funec) realizou, de forma inédita, de 13 a 20 de maio, a 1ª Marcha Virtual de Enfrentamento ao Racismo. Em função da pandemia e do necessário isolamento social, a solução encontrada pela comunidade escolar foi a realização do evento de forma remota.

O envolvimento da Funec Cruzeiro do Sul na pauta de combate ao racismo já é antiga e mobiliza professores, professoras, dirigentes e estudantes na luta antirracista. É o que aponta a diretora da unidade, Rosilene Souza.

“Todos os anos participamos da marcha, mas este ano, em função do isolamento, tivemos de fazer virtualmente. Foi muito emocionante ver os estudantes participando e dando depoimentos”, destacou Rosilene.

A dinâmica do evento, que contou com a participação dos estudantes de todas as turmas da Funec Cruzeiro do Sul, foi a realização de palestras com convidados. No encerramento houve um “Ato Cultural”, com participação de artistas locais da cidade.

Racismo estrutural

Umas das palestrantes convidadas foi a professora de história, Vanderléia Reis, que abordou o racismo estrutural e como ele “atravessa nossa sociedade” sem que as pessoas nem percebam. “Esse evento é um marcador na luta por uma educação antirracista. Em tempos tão difíceis, é muito bom ver o esforço da escola pública em manter diálogo tão importante e urgente”, disse.

Vanderléia também destacou a importância de dialogar acerca do “mito” da democracia racial, do “epistemicídio” (representação do racismo na produção intelectual, responsável por negar a capacidade dos povos não brancos de produzir saber e conhecimento) e da trajetória de negras e negros no Brasil. Ela também afirmou a necessidade de se pensar estratégias que “nos ajudem a construir uma sociedade mais justa e equânime” do ponto de vista racial.

Para a secretária Municipal de Educação, Telma Fernanda Ribeiro, que também participou da Marcha Virtual, é preciso instituir um currículo diferente nas escolas de Contagem. “Nossos currículos afirmam, reafirmam e reproduzem a superioridade da identidade masculina, heterossexual, branca, patriarcal e racista. Nós queremos um currículo diferente, queremos uma escola diferente” afirmou.

Telma defendeu, ainda, que a “inferioridade” da identidade indígena, negra, feminina, homossexual ou “qualquer identidade transgressora do padrão estabelecido” seja abolida.

O coordenador da 1ª Marcha Virtual de Enfrentamento ao Racismo, professor Valber Silvino de Oliveira, se considera um otimista quanto às perspectivas de crescimento, maturidade e formação para todos os envolvidos nesse trabalho. Ele explica que a Marcha Virtual é consequência do “Projeto Roda de Conversas”, implementado desde o início das aulas remotas e que tem propiciado um estreitamento muito forte do vínculo escola, professor (a), estudantes e comunidade.

“Em uma das nossas reuniões abordamos a questão da redução da maioridade penal e surgiu a temática sobre o racismo. Foi uma discussão enriquecedora, que formou e reformulou conceitos e paradigmas. Lamentavelmente, naquele dia, nossa discussão teve que terminar, gerando em nós o sentimento de que ela não poderia ter acabado”, disse Valber.

A discussão culminou no evento virtual que envolveu toda a comunidade escolar da Funec Cruzeiro do Sul, com apoio dos dirigentes escolares e ampla participação dos estudantes, como afirmou o professor Valber. “Estabeleceu-se em nossa unidade de ensino uma expectativa e uma motivação diferente de ser participante desse evento. Foi um sentimento cônsono, harmonioso”.

A experiência da Marcha Virtual foi uma oportunidade de grande aprendizado para Gabriela Vitória Menezes Alvez, 15 anos, estudante da turma 1A da Funec Cruzeiro do Sul. “Fiquei conhecendo escritores negros, textos e histórias que eu não conhecia. Faz com que os estudantes reflitam sobre o racismo, dá mais argumentos para expressar opiniões, mudar atitudes”, valorizou.

Gabriela, que já sofreu racismo, defende mais iniciativas como esta da Funec Cruzeiro do Sul e deseja que a sociedade possa refletir sobre o tema. “Primeiramente as pessoas devem ser antirracistas, participarem das lutas para que negros e negras tenham mais direitos, para que escritores negros tenham mais repercussão. É importante participar da luta contra o racismo. É uma luta de todos nós”, concluiu a estudante.

Repórter Fernando Dutra

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