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Prefeitura Municipal de Contagem
Contagem na luta pela democracia
A greve dos metalúrgicos, em 1968, foi um marco na luta contra a ditadura

A primeira grande mobilização sindical do Brasil durante a ditadura milita instalada no país em 1964, aconteceu em Contagem.
Entre 1950 a 1964, o Brasil caminhava para a urbanização, com a mudança do pólo dinâmico da economia do campo para as cidades. Como fruto da expansão democrática propiciada pelos governos JK, Jânio Quadros e João Goulart, ocorre em todo o País um expressivo crescimento dos movimentos sociais reivindicativos. É a época das grandes manifestações nacionalistas, como a do "O petróleo é nosso". O movimento estudantil estava em plena atividade com a liderança da UNE, formam-se sindicatos, associações de classe e partidos políticos de orientação socialista. Em Minas, com a Cidade Industrial em processo de implantação e crescimento, surge um campo fértil para a eclosão desses movimentos trabalhistas.

O golpe

Em 31 de março de 1964 veio o Golpe Militar, que reprimiu violentamente os movimentos reivindicatórios, com prisões, torturas e cassações de mandatos e direitos políticos e dirigentes de entidades, suprimindo grande parte dos direitos trabalhistas. O governo militar iniciou um processo de constante desvalorização do salário mínimo, ao passo que a inflação começava a aumentar freneticamente, instalando-se um processo de arrocho salarial que passaria a ser o grande fantasma dos trabalhadores, e também dos patrões, pelos constantes focos de conflito provocados por essa situação.

O sindicato

Em meados de 1967, as eleições para a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem foi vencida por uma chapa de esquerda, ligada ao extinto Movimento Intersindical Anti-arrocho (MIA), que defendia as lutas apoiadas nas comissões de fábricas, além de se manifestar contra o regime militar. Por determinação do regime, essa diretoria foi cassada pela Delegacia Regional do Trabalho antes mesmo de tomar posse, sendo substituída por uma junta interventora formada por sindicalistas conhecidos como "pelegos".

Campanha salarial

A diretoria cassada manteve a atividade junto às bases metalúrgicas e, na campanha salarial de 1968, incitou a reivindicação de 25% de reajuste salarial. Como parte dessa estratégia de radicalização, em 16 de abril de 1968, esses sindicalistas promovem a ocupação da siderúrgica Belgo Mineira, em Contagem, iniciando uma greve que paralisa as atividades dos 1.200 trabalhadores da fábrica.

Apesar de o direito de greve estar suspenso pela Lei 4.330 de junho de 1964, os patrões oferecem uma contra-proposta de 10% - oferta que, em si, já contrariava a política salarial do regime. A proposta é recusada pela comissão de empresa, e o impasse fica estabelecido. A greve não apenas continuou como se expandiu. Ao terceiro dia, a paralisação atingia a Mannesmann, SBE, Belgo de João Monlevade, Acesita, paralisando cerca de 20 mil trabalhadores em poucos dias.

Repressão

Numa atitude insólita, o então Ministro do trabalho, coronel Jarbas Passarinho, compareceu a uma assembléia dos grevistas em Contagem para exigir a volta imediata ao trabalho. Segundo o sociólogo Roque Aparecido da Silva, um dos líderes da greve dos metalúrgicos de Osasco em 1968, Jarbas Passarinho teria dito aos grevistas contagenses: "Se as condições se agravarem, vai haver luta e perderá quem tiver menos força, embora não queiramos fabricar e nem nos transformar em cadáveres".

Essa declaração, móbida, não demoveu os metalúrgicos. Mas, Passarinho não ficou só nas ameaças. Em cadeia nacional de rádio e televisão conclamou "o início da guerra" aos operários contagenses, desencadeando uma forte repressão contra os grevistas.No dia 24 de abril de 1968, militares ocuparam a Cidade Industrial, proibiram as assembléias, a distribuição de boletins e os ajuntamentos.

A repressão forçou os trabalhadores a abandonarem, gradativamente, o movimento. A greve, entretanto, era tão forte, e havia alçando tamanha repercussão nacional graças à solidariedade despertada entre as entidades classistas, que os empresários mantiveram a proposta de 10% de reajuste dos salários.

A conquista

Assim, no dia 1º de maio de 1968, com os operários ainda em greve, o general-presidente Costa e Silva autorizou o reajuste salarial pondo fim ao movimento.

Todavia, o regime militar tentou descaracterizar a vitória dos metalúrgicos de Contagem apresentando o reajuste como uma concessão do governo a todos os trabalhadores brasileiros. Entretanto, diz Roque Aparecido da Silva "o tiro saiu pela culatra, visto que os trabalhadores de todo o país perceberam que esse aumento tinha sido fruto da greve dos metalúrgicos mineiros".

A greve dos metalúrgicos de Contagem foi a primeira grande manifestação das classes trabalhadoras brasileiras, sob o regime militar, contra o arrocho salarial e pela democracia.

A partir de 1976, a Arquidiocese de Belo Horizonte passou a realizar na Praça da Cemig, em Contagem, a Missa do Trabalhador, com a participação das pastorais sociais. Em 2007 completaram-se 31 anos da tradicional celebração, que leva centenas de fiéis à Praça da Cemig, para rezar e pedir melhores oportunidades de trabalho. Com o passar dos anos o evento passou a ter a participação de sindicalistas de diversas categorias profissionais, que junto com a missa realizam ato público em defesa de suas bandeiras de lutas.